A reforma do Código Penal em matéria de reincidência múltipla (Lei Orgânica 1/2026): entre a necessidade e uma resposta punitiva excessiva

Artigo14 de abril de 2026
A fim de melhorar a segurança pública e combater a perceção de impunidade associada a certos crimes menores repetidos, o legislador decidiu endurecer as penas para os reincidentes.

A alteração legislativa introduz uma mudança significativa na abordagem da reincidência no âmbito do sistema de justiça penal espanhol. Tradicionalmente, a reincidência tinha sido tratada como uma circunstância agravante, mas o seu impacto prático, especialmente em relação a infracções menores, era limitado. Com o novo regulamento, a reincidência múltipla assume um papel mais proeminente, permitindo que as infracções repetidas sejam objeto de sanções penais significativamente mais severas. Em suma, trata-se de uma aposta clara na intensificação da resposta punitiva contra aqueles que fazem do crime uma prática habitual.


Esta evolução é particularmente evidente na área dos pequenos delitos contra a propriedade, onde o fenómeno da reincidência tem gerado uma preocupação crescente entre os profissionais do direito e o público em geral. Os chamados "pequenos furtos" cometidos repetidamente têm sido uma das principais forças motrizes da reforma, uma vez que projectam uma imagem de ineficácia do sistema de justiça penal. A Lei Orgânica n.º 1/2026 visa colmatar esta lacuna, facilitando a aplicação de penas mais severas com base na acumulação de condenações anteriores e limitando o acesso a benefícios prisionais que, até agora, permitiam aos infractores evitar consequências mais graves.


No entanto, vale a pena fazer uma pausa para considerar a natureza do problema que está a ser abordado. A reincidência múltipla não é um fenómeno homogéneo, nem resulta de uma causa única. Em muitos casos, por detrás do comportamento criminoso repetido estão situações de marginalização, exclusão social ou dependência de substâncias, que geram padrões de delinquência de baixa intensidade mas de elevada frequência. Noutros casos, trata-se de estratégias criminais mais estruturadas, em que a reincidência faz parte de um modelo de geração de rendimentos. Esta diversidade levanta a questão de saber se uma resposta uniforme e mais dura do sistema de justiça penal é efetivamente a forma mais adequada de abordar o problema em toda a sua complexidade.


Do ponto de vista dos princípios subjacentes ao direito penal, a reforma abre espaço para uma reflexão crítica. O princípio da proporcionalidade pode ficar comprometido quando a acumulação de infracções menores conduz a penas que, na prática, se aproximam das previstas para os crimes mais graves. A reincidência justifica, sem dúvida, uma resposta mais severa, mas a questão está em determinar em que medida essa severidade mantém uma relação equilibrada com a natureza dos actos cometidos.


Na mesma ordem de ideias, a reforma levanta questões relativas ao princípio da culpabilidade. Com efeito, corre-se o risco de que a atenção se desloque progressivamente do ato concreto para a história pessoal do indivíduo, dando mais importância ao seu estatuto de reincidente do que à gravidade da infração que lhe é imputada. Se esta tendência prevalecer, poderá aproximar o sistema dos princípios de um "direito penal da pessoa", em que a pena é aplicada não só pelo que se faz, mas também pelo que se é ou pelo que se fez no passado. Trata-se de uma alteração que a doutrina do direito penal baseada no princípio do processo equitativo tem tradicionalmente rejeitado e que deve ser analisada com cautela.


O potencial impacto sobre o princípio da intervenção mínima também não está isento de críticas. O direito penal é concebido como um último recurso, reservado para os ataques mais graves aos direitos legais. No entanto, a reforma intensifica o seu uso em áreas onde outras vias de intervenção, como as políticas sociais, os mecanismos administrativos sancionatórios ou programas específicos de reinserção, poderiam ser mais bem exploradas.


Outro aspeto significativo é o impacto que a reforma pode ter no sistema prisional. A resposta penal mais severa à reincidência múltipla pode levar a um aumento do número de admissões na prisão por infracções que, consideradas individualmente, não teriam resultado em penas de prisão. Isto levanta não só um problema de capacidade do sistema, mas também um problema de coerência com os objectivos de reabilitação e de reinserção social das penas de prisão.


Na prática quotidiana dos profissionais do direito, a Lei Orgânica n.º 1/2026 introduz alterações que não são de menor importância. A avaliação dos antecedentes criminais assume uma importância decisiva na definição da estratégia de defesa, exigindo uma análise mais aprofundada das circunstâncias pessoais do cliente. O âmbito dos acordos negociados é reduzido em certos casos, e aumenta a importância da conceção de estratégias preventivas para evitar a acumulação de condenações. Além disso, a complexidade da determinação da pena adequada é acrescida, uma vez que é necessário ponderar não só a infração específica, mas também os antecedentes criminais globais.


O efeito que esta reforma pode ter na perceção pública da justiça não pode ser ignorado. Por um lado, pode ajudar a reforçar a ideia de que o sistema de justiça penal responde mais firmemente à reincidência, o que pode ser positivo no que respeita à confiança do público. Por outro lado, corre-se o risco de criar expectativas que dificilmente serão satisfeitas se as causas profundas do fenómeno não forem abordadas. A frustração resultante da persistência de certos comportamentos criminosos, apesar de penas mais severas, pode voltar a corroer essa confiança.


Em resumo, a Lei Orgânica n.º 1/2026 representa um claro reforço da resposta penal à reincidência múltipla. No entanto, o seu alcance efetivo não pode ser medido apenas em termos da severidade da punição, mas na sua capacidade de se inserir numa estratégia mais ampla. Sem o apoio de medidas sociais, preventivas e de reintegração que abordem as causas subjacentes, corre-se o risco de a reforma continuar a ser uma resposta imediata, mas insuficiente para proporcionar soluções eficazes e sustentáveis a longo prazo.


Artigo escrito por Lydia García, Jr associada da ECIJA Madrid.

Un grupo de personas camina hacia una entrada iluminada en un edificio oscuro.

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