Infra-estruturas verdes urbanas: ciência e planeamento para cidades mais habitáveis
O debate conta com a participação de Víctor Moralo, sócio e diretor de sustentabilidade da ECIJA; Óscar Martínez Gaitán, engenheiro agrónomo e fundador de Los Árboles Mágicos; e Antonio Delgado, doutorado em Geologia e professor investigador do CSIC no Instituto de Ciências da Terra, que fornece uma perspetiva científica à discussão.
O debate assenta numa ideia central: as árvores urbanas já não podem ser consideradas meros elementos ornamentais ou espaços abertos no planeamento urbano. No contexto atual, marcado pelas alterações climáticas, pelo aumento das temperaturas e pela necessidade de adaptação das cidades, as infra-estruturas verdes assumem um papel muito mais amplo. O seu valor reside nos serviços ecossistémicos que presta: gerar sombra, reduzir o efeito de ilha de calor, melhorar a qualidade do ar, regular a humidade, absorver partículas poluentes, reduzir o ruído, criar espaços de convívio e melhorar o bem-estar físico e mental dos cidadãos.
Do ponto de vista jurídico, Víctor Moralo situa o debate no quadro normativo europeu e espanhol, destacando a importância crescente da recuperação dos ecossistemas, da biodiversidade e da integração de critérios climáticos no planeamento urbano. Neste sentido, assinala que as cidades devem incorporar a sustentabilidade de forma transversal nos seus instrumentos de planeamento, não como uma questão acessória, mas como uma condição necessária para melhorar a sua resiliência e qualidade de vida.
António Delgado introduz um ponto científico relevante: os parques urbanos e as árvores não devem ser apresentados de forma simplista como grandes sumidouros de CO₂ capazes de compensar as alterações climáticas globais. A sua contribuição para a fotossíntese planetária é limitada em termos quantitativos. No entanto, a sua importância é enorme à escala local. Os espaços verdes urbanos ajudam a reduzir as temperaturas através da sombra e da evapotranspiração, contribuem para a retenção de partículas poluentes como as PM10 e PM2.5, ajudam a mitigar certos gases presentes nas cidades e geram pequenos ecossistemas onde interagem o solo, a água, os fungos, as aves, os insectos e a vegetação.
O debate insiste particularmente no facto de os espaços verdes urbanos deverem ser concebidos com o mesmo rigor que qualquer outra infraestrutura. Óscar Martínez Gaitán explica que não faria sentido construir um edifício ou uma ponte sem fundações adequadas, mas muitas vezes as árvores de grande porte são plantadas em covas de plantação inadequadas, sem espaço para o desenvolvimento das raízes e sem um planeamento adequado do seu crescimento futuro. Esta falta de critérios técnicos pode levar a problemas de saúde das árvores, quedas de árvores, podas desnecessárias e redução da eficácia dos serviços que se espera que prestem.
Um dos pontos-chave do debate é a crítica a uma abordagem puramente estética ou mecânica na gestão dos espaços verdes. Os participantes alertam para práticas como a poda sistemática sem justificação, a utilização indiscriminada de maquinaria, a limpeza sem ter em conta a biodiversidade ou a criação de relvados em locais que não têm um objetivo social ou ambiental claro. Defendem que a gestão dos espaços verdes urbanos deve basear-se em conhecimentos técnicos, critérios científicos e na correta elaboração de portarias, contratos públicos e cadernos de encargos de manutenção.
A conversa aborda também o debate sobre a água e a escolha das espécies vegetais em meio urbano, especialmente em climas mediterrânicos. É sublinhado que não basta falar de espécies autóctones em termos gerais, uma vez que a cidade é um ambiente profundamente transformado. A seleção de árvores e plantas deve responder às condições reais do espaço urbano, à disponibilidade de água, à capacidade de fornecer sombra, ao comportamento com o calor e aos objectivos específicos de cada área. Neste sentido, destaca-se a necessidade de investigar novas variedades, recuperar as águas pluviais ou cinzentas sempre que possível e eliminar os relvados que não têm uma função social clara.
Outro tema fundamental discutido é a dimensão social dos parques urbanos. Em contraste com uma visão centrada exclusivamente nos grandes parques periurbanos, os participantes sublinham a importância dos parques de bairro, das praças e dos espaços verdes locais. Estes locais facilitam a convivência entre gerações, fomentam o sentimento de pertença à comunidade, proporcionam espaços para brincar, descansar e socializar e ajudam a nivelar as condições entre os residentes. Por conseguinte, a infraestrutura verde não tem apenas uma função ambiental, mas também social, cultural e sanitária.
O debate termina com uma ideia comum: as cidades do futuro não serão mais sustentáveis apenas por incorporarem mais espaço verde, mas por o planearem melhor. A infraestrutura verde urbana requer uma abordagem transversal que ligue a ciência, o planeamento urbano, o direito, os contratos públicos, a manutenção, a saúde e a participação dos cidadãos. As "árvores mágicas" não o são por uma qualidade abstrata ou simbólica, mas pela sua capacidade real de transformar a vida urbana quando são plantadas, cuidadas e geridas com atenção.
Com esta última edição dos Encontros com Cientistas, Ciência em Sociedade abre um espaço de reflexão sobre um dos grandes desafios urbanos do nosso tempo: compreender que os espaços verdes não são apenas um ornamento da cidade, mas uma infraestrutura essencial para a sua adaptação, habitabilidade e futuro.
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