O risco de investir por impulso entre os jovens
As redes sociais tornaram-se uma das principais fontes de informação financeira para os jovens. Plataformas como TikTok, Instagram e YouTube apresentam milhares de vídeos curtos — reels — nos quais os criadores de conteúdo explicam estratégias de investimento, recomendam ações e prometem fórmulas para alcançar independência financeira em um curto período de tempo. No entanto, por trás dessa linguagem acessível e inspiradora, em muitos casos, esconde-se uma narrativa de sucesso rápido que minimiza os riscos e distorce a realidade dos mercados.
Este fenómeno é motivo de particular preocupação para a Comissão Nacional do Mercado de Valores Mobiliários (CNMV) espanhola, que tem monitorizado ativamente a atividade dos finfluencers desde 2022. A entidade supervisora alerta que muitas dessas recomendações podem esconder conflitos de interesse, como comissões para atrair novos clientes para plataformas de investimento ou a venda de cursos que prometem retornos irrealistas.
As análises mais recentes da Funcas identificam três grupos particularmente vulneráveis: jovens em busca de lucros rápidos que obtêm suas informações exclusivamente nas redes sociais; pessoas com rendimentos baixos ou instáveis, que são mais propensas a assumir riscos excessivos; e usuários com baixo nível de educação financeira, que tendem a superestimar sua capacidade de compreender produtos complexos.
Diante desse cenário, a CNMV esclareceu recentemente quando a atividade dos finfluencers pode ser considerada aquisição de clientes, uma função reservada exclusivamente a entidades autorizadas. Sobre esse ponto, Cristina Villasante, sócia da ECIJA, destaca que: “Se houver compensação financeira, o conteúdo deve ser claramente identificado como publicidade. Os criadores podem divulgar mensagens publicitárias, mas não podem solicitar clientes ou interagir com eles respondendo a perguntas para induzir investimentos”.
Esta distinção é fundamental do ponto de vista jurídico, uma vez que o incumprimento destas obrigações pode resultar em sanções significativas, que podem atingir 500 000 euros para pessoas singulares e 1 milhão de euros para pessoas coletivas.
A preocupação não se limita ao regulador. A OCU denunciou recentemente práticas alegadamente enganosas por parte de empresas de formação financeira online, com foco em mensagens urgentes, promessas de resultados rápidos e possíveis violações do direito de rescisão. Tudo isto reforça a ideia de que a linha entre divulgação, publicidade e recomendações de investimento está a tornar-se cada vez mais ténue no ambiente digital.
Do ponto de vista jurídico, os especialistas concordam que o que importa não é como o finfluencer se define, mas o conteúdo e o objetivo real da mensagem. Se uma publicação incentiva o investimento em determinados títulos ou produtos financeiros, ela deve cumprir os requisitos de clareza, objetividade e transparência exigidos pelos regulamentos, diferenciando fatos de opiniões e evitando omitir informações relevantes que possam ser enganosas. A este respeito, Villasante salienta a necessidade de extrema diligência quando o público-alvo inclui menores ou jovens com pouca experiência em investimentos.
Entretanto, o papel das grandes plataformas digitais continua a ser objeto de debate. A CNMV sancionou recentemente a X por não bloquear anúncios de supostas fraudes financeiras e denunciou a falta de cooperação de algumas redes sociais, em contraste com os compromissos assumidos por outras, como a Google e a Meta, de verificar a autorização dos anunciantes.
Num contexto em que um em cada três jovens entre 18 e 30 anos investiu no último ano e 15% admitem ter sido vítimas de um esquema recente, a combinaç ão de supervisão eficaz, responsabilidade da plataforma e educação financeira transparente torna-se essencial. Caso contrário, muitos continuarão a tomar decisões de investimento "por capricho", sem distinguir entre informações objetivas e publicidade dissimulada, com consequências potencialmente graves para as suas finanças pessoais.
Leia o artigo completo publicado no El País aqui.