Interações, alcance e tensões no novo ciclo de investimento e reforma do Estado na Argentina
A atual agenda de privatizações e a reformulação do papel do Estado reacenderam um debate clássico no direito público económico: como estruturar a relação entre os setores público e privado para atrair investimentos, modernizar infraestruturas e sustentar serviços essenciais, sem comprometer de forma insustentável as contas fiscais.
Quatro temas distintos, mas inter-relacionados, convergem neste cenário:
- A privatização, como política de reorganização do Estado.
- Concessões, como instrumento histórico para delegar obras e serviços públicos.
- Projetos de parceria público-privada (PPP), como veículo para infraestruturas de grande escala com financiamento privado.
- RIGI, como um regime macro para promoção com benefícios de longo prazo e estabilidade regulatória.
1) Concessões: o «veículo clássico» volta ao centro das atenções
As concessões permitem ao Estado manter a propriedade dos ativos utilizados para fins públicos, mas delegar a sua execução, operação ou ambas a um operador privado ao abrigo de um regime de direito público com normas, investimentos, tarifas e controlo.
O seu âmbito setorial é transversal (transportes, energia, saneamento, resíduos, comunicações, infraestruturas sociais) e, no novo ciclo de reformas, são mais uma vez um importante suporte jurídico para a privatização, a modernização regulatória e a abertura ao investimento privado.
2) PPP: infraestrutura abrangente e transferência de risco
O regime de PPP (Lei 27.328) foi concebido para projetos de grande escala e longo prazo, nos quais o setor privado assume o projeto integrado, a construção, o financiamento, a operação e a manutenção, com compensação por meio de pagamentos do Estado, dos usuários ou mistos.
A sua característica distintiva é que o financiamento privado é um elemento essencial e a lógica de repartição de riscos (construção, procura, disponibilidade) procura conciliar o investimento com a sustentabilidade fiscal.
3) RIGI: estabilidade regulatória e benefícios por 30 anos
O RIGI (Lei 27.742) é apresentado como um guarda-chuva para promover investimentos de grande escala em setores estratégicos, combinando benefícios fiscais, cambiais e aduaneiros com estabilidade regulatória de longo prazo.
Do ponto de vista das infraestruturas e dos serviços públicos, a RIGI poderia funcionar de forma complementar às concessões e às PPP: o mesmo projeto poderia ser estruturado como uma concessão ou PPP e, ao mesmo tempo, beneficiar da RIGI para maximizar a previsibilidade e o apelo aos investidores. A chave está na forma como as especificações, o financiamento e os contratos são concebidos.
4) Privatização e empresas estatais: o debate subjacente
A análise é completada com uma discussão sobre o Estado empreendedor e o princípio da subsidiariedade. As empresas estatais têm sido descritas como «enclaves estatais em território privado» devido à tensão entre a sua forma corporativa e o seu objetivo público.
Nesta perspetiva, a privatização é entendida como uma reinterpretação do papel do Estado: o Estado retira-se das atividades que o mercado poderia assumir e concentra-se no planeamento, regulamentação, supervisão e proteção dos utilizadores e consumidores.
5) Interação e «questões em aberto»: o ponto crítico
A coexistência de privatizações, concessões, PPP e RIGI pode ser consistente e até desejável se forem concebidas como regimes complementares. No entanto, o artigo enfatiza que, na prática, surgem questões relevantes:
- Um empreiteiro ao abrigo de uma PPP pode ser simultaneamente abrangido pelo RIGI?
- É aconselhável obter primeiro a «proteção» do RIGI e depois concorrer a uma licitação de concessão ou PPP?
- Os incentivos somam-se harmoniosamente ou geram sobreposições, distorções ou conflitos fiscais?
A conclusão aqui é deliberadamente cautelosa: ainda há mais perguntas do que respostas, como é típico de regulamentos que ainda não foram totalmente implementados e cujo impacto dependerá da concepção específica de cada projeto.
Conclusão
O novo ciclo aponta para um Estado que deixa de operar diretamente e se concentra na regulamentação, supervisão e controlo, enquanto o setor privado assume cada vez mais a operação e o financiamento de infraestruturas estratégicas. O desafio será evitar contradições entre os regimes, garantir a transparência e a concorrência e assegurar a continuidade e a qualidade dos serviços, para que estas ferramentas cumpram o seu objetivo: investimento genuíno, melhores infraestruturas e desenvolvimento com responsabilidade fiscal.
Artigo escrito por Constanza Cassino, sócia da ECIJA Argentina.