Roubo de segredos comerciais: o que nos ensina o caso Ferrovial vs. Acciona

Artigo26 de novembro de 2025
No seu artigo de opinião publicado no Cinco Días, Helena Suárez, sócia da ECIJA, analisa o caso Ferrovial vs. Acciona nos Estados Unidos, um conflito que ilustra os desafios actuais da proteção dos segredos comerciais.

Na economia do conhecimento, os activos intangíveis são poder. As empresas competem não só pelos mercados, mas também pelos talentos, dados e processos que constituem a sua vantagem competitiva. E quando esse talento se vai embora, o que acontece aos segredos que detém?


O recente litígio entre a Ferrovial SE e a Acciona SA nos Estados Unidos é um exemplo paradigmático. A Ferrovial acusa a Acciona de roubo de segredos comerciais e de espionagem industrial na sequência da saída de vários executivos. O processo foi apresentado em 14 de fevereiro de 2025, perante o Tribunal Distrital Federal do Distrito Norte da Geórgia, presidido pelo juiz Leigh Martin May. De acordo com a queixa, um antigo gestor de projectos na Geórgia descarregou mais de 100.000 documentos confidenciais antes de entrar para a Acciona. Os ficheiros incluíam plantas de engenharia, estratégias de construção e de concurso, planos de gestão, resumos de riscos e preços.


A Ferrovial pede uma injunção para proibir a utilização da informação desviada, a devolução imediata e indemnizações exemplares. A Acciona nega ter solicitado ou utilizado a referida informação e alega que a ação é infundada. O contexto concorrencial acrescenta tensão: ambas as empresas estão a competir por contratos multimilionários em infra-estruturas chave como a autoestrada I-285 em Atlanta.


Este conflito não é isolado. De acordo com o relatório 2023 do Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia (Euipo), que avalia cinco anos de aplicação da Diretiva (UE) 2016/943 relativa aos segredos comerciais, foram registados 695 processos judiciais na UE entre janeiro de 2017 e outubro de 2022. 89% eram de natureza civil e quase metade (46%) chegaram a recursos. Os sectores mais afectados: tecnologia, farmacêutico e financeiro. A diretiva harmonizou a definição e os mecanismos de proteção, mas os desafios persistem: dificuldades probatórias, confidencialidade nos processos e barreiras para as PME.


Porque é que isto é importante? Porque os segredos comerciais estão no centro da inovação. Em sectores estratégicos, podem representar até 80% do valor intangível de uma empresa. Ao contrário das patentes, não expiram nem são publicados. A sua proteção não se baseia em registos, mas sim na confiança. Proteger o invisível - o que não se vê nem se toca, mas que está na base do modelo de negócio - exige mais do que cláusulas: cultura, visão e coerência. Aqui, o direito encontra-se com a gestão, e a vulnerabilidade não está no sistema, mas nas pessoas.


A proteção dos segredos não é apenas uma questão jurídica; é uma questão cultural. As empresas devem integrar a confidencialidade no seu ADN e não limitar-se a cláusulas contratuais. Protocolos claros, formação e coordenação entre os departamentos de RH, jurídico e de conformidade são essenciais. Mas não basta proteger. É necessário saber como reagir. Num mundo hiperconectado, uma fuga de informação pode transformar-se numa crise de reputação em poucas horas.


A narrativa pública deve proteger a reputação sem comprometer a estratégia jurídica. Erros comuns: negação de provas, improvisação ou subestimação do impacto nas redes sociais. A comunicação interna também é fundamental: os funcionários são embaixadores, mas também vectores de risco.


E quando tudo falha, chega o litígio. Provar a existência do segredo e a sua utilização abusiva continua a ser o grande desafio. As provas são fundamentais; é necessário explicar por que razão a informação constitui um segredo, a eficácia das medidas de proteção e a diligência da empresa na sua defesa.


A lei avançou, mas a prática judicial continua a enfrentar obstáculos. O que é que podemos aprender? Três ideias: prevenção estratégica, gestão global da crise e preparação do contencioso.


A perda de talento não é apenas um problema de recursos humanos; é um risco legal e de reputação que pode custar milhões. Proteger o intangível requer visão, investimento e colaboração entre áreas. Porque os segredos não são apenas roubados em filmes: perdem-se em escritórios, servidores e conversas, e recuperá-los pode ser mais caro do que protegê-los.


Veja o artigo completo publicado no Cinco Días aqui.

Una vista aérea de una intersección urbana con personas y sombras marcadas.

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