A Audiência Nacional reforça a segurança jurídica e o papel dos AIE na tributação do audiovisual
O Supremo Tribunal Nacional confirmou uma vez mais que os Agrupamentos de Interesse Económico (AIE) podem ter o estatuto de "empresas de produção" para efeitos da Lei do Cinema, permitindo a atribuição de créditos fiscais aos seus membros.
Nos últimos anos, a Agência Tributária (AEAT) intensificou o seu controlo sobre os Agrupamentos de Interesse Económico (AIE), especialmente os utilizados para financiar projectos audiovisuais. Este controlo acrescido, que se reflecte no Plano de Controlo Fiscal 2025, afectou tanto os próprios AIE como os investidores que aplicam as deduções fiscais geradas por estes veículos empresariais, que são reconhecidos pela legislação em vigor.
Como resultado, muitas empresas reforçaram as suas estruturas e documentação de suporte, num contexto de crescente conflito com a Administração.
Neste cenário, o Acórdão do Tribunal Nacional de 30 de outubro de 2025 (SAN 4689/2025) constitui um marco relevante. Não só pelo seu impacto no caso concreto, mas também porque consolida uma linha jurisprudencial que confere segurança jurídica a um sector que, durante anos, funcionou sob uma considerável incerteza fiscal.
Os AIE enquanto sociedades de produção cinematográfica
O Tribunal Nacional reitera que os AIE podem ter o estatuto de sociedades de produção cinematográfica para efeitos da Lei do Cinema e, por conseguinte, gerar deduções fiscais em sede de IRC imputáveis aos seus membros. Esta posição já tinha sido defendida em acórdãos anteriores proferidos em 2025, como os proferidos nos recursos 605/2020 (29 de janeiro) e 1096/2020 (27 de junho).
Contra esta posição, a AEAT vinha argumentando que alguns AIE não dispunham de meios próprios ou reais suficientes para a sua atividade, o que impediria a sua classificação como sociedades produtoras e, consequentemente, a geração de deduções por investimentos audiovisuais.
O acórdão analisa o conceito de "produtor cinematográfico" e conclui que o AIE em causa preenche os requisitos: iniciativa de gestão, titularidade de direitos e assunção de riscos.
Além disso, a Câmara recorda que o direito fiscal não pode criar conceitos autónomos fora do direito e que o conceito de produtor deve ser retirado da legislação cinematográfica. Além disso, esta legislação incentiva expressamente a utilização dos AIE como estruturas de produção, reforçando assim a validade do modelo.
O aumento da dedução nas Ilhas Canárias e o domicílio fiscal dos sócios
Outro dos aspectos fundamentais analisados é se os sócios de um AIE domiciliado nas Ilhas Canárias devem também ter o seu domicílio fiscal no arquipélago para poderem beneficiar da dedução majorada do Regime Económico e Fiscal das Canárias (REF).
Esta dedução pode atingir até 80 % mais do que a dedução geral, o que na prática se traduz em 54 % sobre o primeiro milhão de euros de investimento e 45 % sobre o excedente, dentro dos limites de intensidade previstos.
A Abogacía del Estado, baseando-se num acórdão do Tribunal Supremo das Canárias de 20 de junho de 2022, alegou que o sócio deveria igualmente ser residente nas Canárias. Este critério coincide com a doutrina da Direção-Geral dos Impostos, que estabelece uma distinção entre os sócios dos AIE e os sócios dos AIE:
- Os sócios dos AIE, aos quais são imputadas bases tributáveis negativas e bases de dedução. Neste caso, quando lhes são imputadas "bases" de dedução, imputarão a dedução de acordo com a regulamentação aplicável no seu domicílio fiscal (o do sócio e não o do AIE).
- Os financiadores de projectos audiovisuais, a quem são atribuídas as deduç ões. Tratando-se de uma cessão de deduções, a dedução será calculada de acordo com as regras em vigor no local de residência fiscal do AIE (e não dos parceiros).
Nesta perspetiva técnica, que partilhamos, se o sócio de um AIE residir no território comum, deverá aplicar as regras gerais do IRC, sem acesso aos coeficientes majorados do REF.
No entanto, a Audiência Nacional rejeita claramente esta interpretação. Afirma que a dedução corresponde ao AIE e não aos sócios, que apenas recebem a imputação das bases e deduções geradas.
Além disso, recorda que o REF não é um regime reservado às empresas canárias, mas um instrumento destinado a compensar a insularidade e a atrair investimentos para o arquipélago.
Interpretação finalista do REF
A Câmara apoia a sua posição em abundante jurisprudência do Supremo Tribunal (2006, 2015, 2017 e 2023) e do Tribunal Constitucional, sublinhando que o REF deve ser interpretado com um critério finalista e não restritivo.
Permitir a participação de investidores de todo o território espanhol favorece a chegada de capitais às Ilhas Canárias e evita a imposição de limites que o legislador nunca estabeleceu.
Conclusão
O acórdão da Audiência Nacional de 30 de outubro de 2025 proporciona uma importante dose de clareza num domínio historicamente conflituoso: a classificação dos AIE como sociedades de produção em projectos audiovisuais.
Apesar do reforço do controlo por parte da AEAT, a jurisprudência consolida a legitimidade destas estruturas para gerar deduções fiscais. Do mesmo modo, os tribunais parecem empenhados em respeitar o reconhecimento administrativo prévio concedido por outras autoridades públicas - como o ICAA ou o Ministério da Ciência -, impedindo que a Administração Fiscal actue como legislador de facto.
Por último, embora com cautela técnica, o Tribunal Nacional dá prioridade ao domicílio fiscal da AIE, e não ao dos sócios, para o acesso aos incentivos fiscais acrescidos do REF, reforçando assim a atratividade das Ilhas Canárias como destino do investimento audiovisual.
Aceda ao artigo escrito por Francisco Iniesto, sócio da ECIJA Madrid e publicado em Eldrecho.com aqui.